Esôfago & estômago

Doença do refluxo gastroesofágico

A DRGE é uma condição comum, caracterizada pelo retorno do conteúdo do estômago para o esôfago, levando a sintomas e, em alguns casos, a complicações estruturais.

Autor
Dr. Samuel César

Como a doença se manifesta

Embora muitos pacientes apresentem quadros leves e bem controlados com tratamento clínico, existe um grupo em que a abordagem cirúrgica pode ser indicada e oferecer excelente controle dos sintomas.

Sintomas típicos

  • Queimação retroesternal (azia)
  • Regurgitação ácida

Esses sintomas costumam ocorrer principalmente após as refeições e podem se tornar clinicamente relevantes quando aparecem com frequência (duas ou mais vezes por semana).

Outras apresentações

  • Dificuldade para engolir (disfagia)
  • Dor torácica semelhante à cardíaca
  • Sensação de bolo na garganta (globus)
  • Tosse crônica, rouquidão ou sintomas respiratórios

Nem sempre existe correlação direta entre sintomas e gravidade — alguns pacientes podem ter lesões importantes no esôfago mesmo com poucos sintomas.

Possíveis complicações

Quando o refluxo é persistente, pode levar a alterações estruturais no esôfago, como:

  • Esofagite erosiva (inflamação com lesões na mucosa)
  • Estenose esofágica (estreitamento cicatricial)
  • Esôfago de Barrett — condição associada a risco aumentado de câncer

Diagnóstico

Em muitos casos o diagnóstico é clínico, principalmente quando há sintomas típicos, autorizando o início do tratamento.

A endoscopia digestiva alta é indicada em situações específicas, como dúvida diagnóstica, sinais de alarme, avaliação de complicações ou fatores de risco para Barrett e preparo pré-operatório.

Exames como monitorização do pH esofágico e manometria esofágica podem ser utilizados em casos mais complexos ou antes de uma abordagem cirúrgica.

Tratamento clínico

Medidas comportamentais

  • Perda de peso (quando indicado)
  • Elevação da cabeceira da cama

Medicações

Os inibidores da bomba de prótons (IBP) são o principal tratamento.

Quando considerar a cirurgia

1. Dependência dos IBPs

Pacientes com boa resposta ao tratamento clínico, mas com retorno imediato dos sintomas após a suspensão do remédio. O objetivo da cirurgia é livrar o paciente da dependência do uso de medicações.

2. Intolerância ou recusa ao uso prolongado

3. Falha do tratamento clínico

Sintomas persistentes, mesmo com tratamento otimizado.

4. Complicações

  • Esofagite grave
  • Estenose esofágica
  • Esôfago de Barrett

5. Refluxo de grande volume ou não ácido

Como funciona a cirurgia

O objetivo do tratamento cirúrgico é restaurar a função da barreira antirrefluxo, feito a partir da correção anatômica da hérnia de hiato, quando presente, associado a um mecanismo de contenção do refluxo chamado fundoplicatura.

A fundoplicatura consiste na criação de uma válvula com o fundo do estômago, envolvendo a porção final do esôfago. Isso cria uma barreira que evita o refluxo.

Resultados

A cirurgia apresenta altas taxas de controle dos sintomas em pacientes bem selecionados. Em procedimentos como a fundoplicatura:

  • Melhora ou resolução dos sintomas em 76% a 98% dos casos
  • Normalização da exposição ácida em cerca de 90%

Pacientes com sintomas respiratórios associados ao refluxo (como tosse crônica) podem apresentar melhora significativa após a cirurgia, quando há confirmação da relação com o refluxo.

Considerações finaisA DRGE é uma condição frequente e, na maioria dos casos, controlada com tratamento clínico. Em pacientes com sintomas persistentes, complicações ou limitações ao uso de medicações, o tratamento cirúrgico surge como uma alternativa eficaz e segura — desde que haja confirmação diagnóstica adequada e seleção criteriosa.